Os dois lados da sociedade
Bruno C. Klering
Edith Modesto casou-se aos
dezesseis anos e, junto a isso, deixou de estudar para cuidar dos sete filhos
que vieram deste casamento. Com temas relacionados à juventude em suas obras,
julgo que a autora tenha tido fortes influências nas suas produções devido à
convivência com seus filhos, que ela teve que educar ainda bem jovem. Já com
certa idade, formando-se em Letras, começou a escrever e hoje conta com
diversos livros de diversos temas.
Com uma abordagem e vocabulário
extremamente simples, o que facilita a leitura, Manobra Radical é um livro que tem tudo para agradar aos
adolescentes que são, ou não, apaixonados pelo esporte Skate, afinal, é uma
ótima obra para quem está começando a obter o hábito de leitura. Apresentando
um enredo bastante enriquecido, torna-se com o desenrolar da história muito
interessante e que prende a atenção do leitor.
A obra conta a história de
Robson – o favelado, como dito no livro, – e Ricardo Júnior – o playboyzinho –,
que juntos rompem barreiras e preconceitos sociais devido ao amor pelo skate
que criara uma amizade entre os dois. Robson morava com uma catadora de
papelão, em uma favela de São Paulo, que havia lhe acolhido após perder sua mãe
para polícia e ajudava-a a pagar as contas trabalhando pela manhã como
guardador de carros em frente a uma universidade, e à tarde, como flanelinha.
Ele era um ótimo skatista, e, como todos os praticantes do esporte, sonhava em
poder viver ao lado de seu carrinho (forma “carinhosa” para se chamar o skate),
e fora Júnior quem deu-lhe a oportunidade deste sonho tornar-se realidade. Filho
de um grande empresário e apaixonado pelo esporte, Júnior busca no skate uma
forma de conquistar uma colega de classe, porém, ele não tinha nada mais que
amor pelo skate, faltava-lhe muita habilidade.
Para entrar com tudo no esporte, Júnior envolve-se com o flanelinha para
aprender a andar, mas a família obviamente fora contra, afinal, filho de uma
família rica não deveria praticar um esporte que é “marginalizado”, devido a
sua origem vinda do surfe - que já não era vista com bons olhos -, por ser
praticado na rua e em locais públicos - podendo incomodar as outras pessoas -,
e lembrando vários estereótipos – como drogado e vagabundo -, infelizmente há
uma imagem negativa da sociedade sobre quem o pratica, que aos poucos está
sendo rompida.
Depois de vários acontecimentos, Júnior e Robson conseguem conviver de
forma mais convencional, ambos passam a acostumar-se com a vida que o outro
levava, e até mesmo a família de Ricardo passa a admirar o amigo e lhe
proporciona oportunidades de melhorias de vida.
Mostrando dois lados da sociedade de forma bem impactante, Edith Modesto
cria um universo que hoje é muito comum no esporte, o convívio amigável de
pessoas com culturas diferentes (frase popular: “skatista é tudo irmão”), pois
há uma nova imagem tentando ser formada pelos praticantes que buscam cada vez
mais obter seu espaço na sociedade, mostrando que simplesmente sentem-se livres,
sorridentes e capazes de superar qualquer obstáculo sobre a prancha com
rodinhas, sendo seu único inimigo a superação de seus próprios medos e limites, que é necessário a existência de locais apropriados para a prática do esporte,
para que assim seja possível “sair” das ruas – não necessariamente sair, a
origem do skate está na rua, no olhar diferenciado para a arquitetura das
cidades, e isto é algo que não mudará, mas para poder ocorrer uma prática mais
saudável e esportiva, afinal, alguém que está iniciando não teria grande
controle sobre o skate para não atrapalhar o fluxo de carros e pessoas pelas
ruas -, e assim, criando mais respeito por este estilo de vida.
Modesto, Edith. Manobra Radical.
Editora Ática, 2005. Número de páginas: 127. 1º Edição.


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